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A parceria de sucesso entre o design e o artesanato
Produção artesanal eleva renda de comunidades brasileiras quando aliada ao design - Crédito: Instagram/Nicole Tomazi

A parceria de sucesso entre o design e o artesanato

quinta, 08 de novembro 2018
Como comunidades brasileiras podem se beneficiar do suporte técnico e autoral de criadores para gerar renda
Produtos que podem ser encontrados em lojas de departamentos de uma grande cidade ou numa exposição em Milão, na Itália, podem ter conexão direta com uma comunidade na Amazônia ou em outro recanto do Brasil. A ponte que tornou essa conexão possível é o cruzamento do suporte técnico e autoral de uma designer com o trabalho de uma artesã na confecção das peças que encantam compradores no País e no exterior. Esses são exemplos de parcerias de sucesso entre artesãos e designers apresentadas no painel “Design, artesanato e transformação social”, na programação do Mercado das Economias Criativas do Brasil (MicBR) nesta quinta (8).

Uma das iniciativas mais exitosas do projeto Brasil Original, do Sebrae, é a da comunidade indígena de Barcelos, no Amazonas. Para evitar uma descaracterização do trabalho da comunidade, o designer de produtos e consultor do Sebrae passou um tempo no local para conhecer a realidade. O auxílio aos artesãos locais incluiu consultoria de negócios, para definir preço e divulgar o produto. “Elas vendiam produtos por R$ 5, R$ 10 ou R$ 15, a maioria bijuterias. Orientei para que fizessem peças maiores, de decoração, e os preços hoje chegam a R$ 100, R$ 150 ou até R$ 1.800”, contou Sergio Matos, designer e consultor do Sebrae. “Eu desenhei peças da própria comunidade, mantendo as referências para que não perdessem a identidade.”

O resultado pode ser medido em números. Antes, quando participava de feiras, o grupo da artesã indígena Dinalva Campos vendia até R$ 3 mil em peças. Hoje chega a faturar R$ 80 mil. “Nunca tivemos orientação, as peças eram passadas de geração em geração. Não sabíamos como cobrar, tudo nos ajudou e hoje várias famílias vivem deste trabalho.” As encomendas são tantas que o grupo de Dinalva  só está aceitando trabalhos para 2020.

Outro exemplo de parceria de sucesso entre artesão e designer foi apresentado por Nicole Tomazi, que tem um trabalho autoral, e há anos contrata a artesã Marta Abreu. Elas se conheceram quando Nicole realizava um trabalho para a loja Tok&Stok, para quem vendeu um projeto de objetos de decoração. “Vendi a ideia de almofadas feitas de resíduos que eu não tinha e por uma mão de obra que também não existia. Eles compraram e fui correr atrás”, brinca a designer que contou com a ajuda de Marta para achar mão de obra e os resíduos. “A gente arrumou vários artesãos, mas era difícil trabalhar com resíduos, eles foram saindo ao longo do trabalho. Não foi fácil”, comenta Marta, que até hoje presta serviços para a designer. 

As peças autorais de Nicole, que já foram expostas em Milão, são confeccionadas pela artesã em crochê. “Desenhei uma cadeira estruturada, mas com acabamento em crochê e muito volume, feito pela Marta com um afinco e muita dedicação”, diz a designer. “A Nicole faz umas peças estranhas, meio esquisitas, não entendo bem, mas gosto do trabalho com ela”, brinca a artesã.

No debate, um tema polêmico: a relação entre design e artesão e a preocupação com a autoria das peças. “A minha relação com a Marta sempre foi muito transparente, a criação é minha, é meu o trabalho autoral, ela é contratada para a execução, mas de fato há muitas vezes certa confusão e abuso. Ela tem a produção dela, bem diferente da minha”, explica Nicole. 

No caso de Sérgio, há dois modelos distintos, como explica o consultor e designer que também tem um ateliê de móveis na Paraíba. “Os móveis que projeto são de minha autoria e contrato quem execute, mas no trabalho no Amazonas é diferente, sou coautor porque a ideia original é das artesãs, da comunidade, e eu colaboro.” Dinalva não vê problema na relação de coautoria estabelecida com o designer: “O casamento do designer com o artesão local só nos enriquece, valoriza nosso trabalho. Não vejo interferência ou mudança na nossa essência”.